A Plataforma que Sobreviveu a Três Donos: A Jornada do eCommerce Open Source ao Gigante Corporativo
maio 26, 2025

A Plataforma que Sobreviveu a Três Donos: A Jornada do eCommerce Open Source ao Gigante Corporativo

Quando comecei a trabalhar com comércio eletrônico lá por 2010, todo mundo falava de uma plataforma que estava mudando o jogo. Não era a mais bonita, nem a mais fácil de usar – longe disso! – mas oferecia algo que nenhuma outra plataforma tinha na época: liberdade quase total para fazer o que você quisesse.

Estou falando, claro, da plataforma que começou como Magento e hoje conhecemos como Adobe Commerce. Uma história que, como qualquer boa narrativa de tecnologia, tem seus heróis, vilões, reviravoltas e até mesmo um final em aberto.

Os Rebeldes do Open Source (2007-2010)

Em 2007, o cenário de plataformas de e-commerce era bem diferente. O osCommerce dominava o espaço open source, mas estava ficando ultrapassado e engessado. Foi nesse contexto que Roy Rubin e Yoav Kutner, dois desenvolvedores visionários, fundaram a Varien Inc. e lançaram a versão beta de uma plataforma chamada Magento.

O nome, derivado da cor magenta, simbolizava a mistura de vermelho (paixão) e azul (estabilidade) – uma metáfora bonita, mas que talvez não capturasse totalmente o caos criativo que a plataforma traria para o mercado.

Quando a primeira versão pública foi lançada em março de 2008, a resposta foi imediata. Desenvolvedores e lojistas correram para experimentar essa nova opção que prometia flexibilidade sem precedentes. Em um ano, já havia sido baixada mais de 500.000 vezes – um número impressionante para uma plataforma recém-nascida.

O que tornava o Magento diferente? Sua arquitetura. Construída sobre o Zend Framework e usando PHP, oferecia um nível de personalização que os concorrentes não conseguiam igualar. O uso do padrão MVC (Model-View-Controller) significava que os desenvolvedores podiam modificar funcionalidades sem tocar no código central – algo revolucionário na época.

Claro, essa flexibilidade tinha seu preço. A curva de aprendizado era tão íngreme quanto uma montanha-russa do Hopi Hari, e a performance… bem, digamos que “velocidade” não era exatamente o ponto forte do Magento naqueles dias. Mas para quem precisava de uma solução que pudesse ser moldada às necessidades específicas do negócio, essas desvantagens eram um preço aceitável a pagar.

Em 2010, o crescimento era inegável. A Varien se rebatizou como Magento Inc., e a plataforma já ultrapassava 1,5 milhão de downloads. Uma versão móvel foi lançada, posicionando a plataforma para a revolução do comércio móvel que estava apenas começando. A empresa havia identificado e preenchido uma lacuna crucial no mercado, estabelecendo-se como uma concorrente séria no espaço de e-commerce.

O Primeiro Casamento: eBay e PayPal (2011-2017)

O crescimento meteórico do Magento não passou despercebido pelos grandes players do ecossistema de e-commerce. Em fevereiro de 2011, o eBay fez seu primeiro investimento significativo, adquirindo 49% da empresa por aproximadamente US$ 22,5 milhões. Em junho do mesmo ano, completou a aquisição, tornando o Magento uma subsidiária integral.

A aquisição fazia sentido estratégico para ambas as empresas. O eBay era dono do PayPal na época, e integrar o PayPal mais profundamente com o Magento criava uma combinação poderosa para os comerciantes. Para pequenas empresas competindo com grandes varejistas, essa integração oferecia capacidades de processamento de pagamento de nível empresarial sem a complexidade ou custo empresarial.

Durante esse período, a linha de produtos do Magento se expandiu significativamente. O Magento Enterprise Edition (mais tarde renomeado para Magento Commerce) visava empresas maiores com recursos avançados e suporte dedicado, enquanto o Magento Community Edition (mais tarde renomeado para Magento Open Source) permanecia gratuito para comerciantes menores e desenvolvedores.

Mas nem tudo eram flores. Muitos na comunidade temiam que o eBay sufocasse o espírito open source da plataforma, priorizando integrações com seus próprios serviços em detrimento da flexibilidade que tornara o Magento famoso. E, para ser justo, esses temores não eram totalmente infundados.

A plataforma continuou evoluindo tecnicamente. Os desenvolvedores começaram a trabalhar no Magento 2.0, uma reescrita completa que abordaria muitas das limitações arquitetônicas do código original. Era um empreendimento ambicioso que levaria anos para ser concluído – muitos mais anos do que qualquer um esperava inicialmente.

Em 2015, o cenário de e-commerce mudou novamente quando o eBay anunciou que separaria o PayPal como uma empresa independente. Como parte dessa reestruturação, o eBay vendeu o Magento para a Permira, uma empresa de private equity, por um valor não divulgado. Esse movimento devolveu independência ao Magento, permitindo que traçasse seu próprio caminho novamente.

Novembro de 2015 marcou um momento crucial com o lançamento do Magento 2.0. Não era apenas uma atualização – era uma reimaginação completa da plataforma com uma stack tecnológica moderna, melhor desempenho e escalabilidade aprimorada. A transição não foi sem desafios, já que as mudanças arquitetônicas significativas significavam que extensões e temas do Magento 1 não eram compatíveis com a nova versão.

Para muitos lojistas, migrar do Magento 1 para o Magento 2 foi um pesadelo logístico e financeiro. Imagine reconstruir completamente sua casa porque o encanamento foi atualizado – era mais ou menos assim que muitos comerciantes se sentiam. A comunidade de desenvolvedores também estava dividida, com muitos questionando se a reescrita completa era realmente necessária.

Em 2017, o Magento havia solidificado sua posição como líder de e-commerce. A Gartner o nomeou líder em Comércio Digital, e a Forrester o reconheceu como líder no segmento B2B. A plataforma também passou por uma reformulação da marca, com o Magento Community Edition se tornando Magento Open Source, e o Magento Enterprise Edition se tornando Magento Commerce.

O Segundo Casamento: Adobe (2018-Presente)

Em maio de 2018, a Adobe anunciou que adquiriria o Magento por US$ 1,68 bilhão – um testemunho do valor e posição de mercado da plataforma. Essa aquisição representou mais do que apenas uma transação comercial; sinalizou um novo capítulo na evolução do Magento.

A visão da Adobe era clara: integrar o Magento em sua Experience Cloud para criar uma plataforma completa para criação de conteúdo, marketing, publicidade, análise e comércio. Para comerciantes que já usavam o conjunto de produtos da Adobe, isso prometia uma experiência mais integrada e capacidades de integração mais profundas.

A aquisição trouxe oportunidades e desafios. Por um lado, os recursos e alcance da Adobe abriram novas portas para o Magento. Por outro, alguns na comunidade se preocupavam com o futuro da versão open source e a natureza orientada pela comunidade da plataforma.

Nos anos seguintes à aquisição, a Adobe continuou desenvolvendo e aprimorando a plataforma. Em 2019, introduziram o Adobe Commerce Cloud, combinando o Magento Commerce com as ferramentas de análise, personalização e marketing da Adobe. Também lançaram o Progressive Web App (PWA) Studio, permitindo que os comerciantes criassem experiências semelhantes a aplicativos para usuários móveis.

2020 marcou o fim de uma era com o fim oficial do suporte ao Magento 1. Após 12 anos de serviço, a Adobe descontinuou o suporte à versão original, incentivando os comerciantes a migrar para o Magento 2 – agora oficialmente chamado Adobe Commerce para a versão paga. Essa transição foi significativa, já que muitas empresas haviam construído suas operações no Magento 1 e enfrentavam projetos de migração complexos.

A Adobe também abraçou a IA e o aprendizado de máquina, introduzindo recomendações de produtos alimentadas por IA e outros recursos inteligentes. Essas capacidades, impulsionadas pelo Adobe Sensei, ajudaram os comerciantes a oferecer experiências de compra mais personalizadas.

Hoje, o Adobe Commerce (anteriormente Magento Commerce) continua servindo como uma solução poderosa para empresas de médio porte e grandes empresas, enquanto o Magento Open Source permanece disponível para comerciantes menores e desenvolvedores – embora muitos questionem por quanto tempo, dado o foco claro da Adobe na versão comercial.

A verdade desconfortável é que, sob a Adobe, a plataforma perdeu parte de sua identidade original. O que antes era uma solução flexível e acessível para empresas de todos os tamanhos tornou-se cada vez mais corporativa, com preços que muitas vezes colocam o Adobe Commerce fora do alcance de pequenas e médias empresas. A complexidade também aumentou, com a integração ao ecossistema Adobe adicionando camadas de funcionalidade que nem todos os comerciantes necessitam ou desejam.

A Resposta da Comunidade: Forks e Alternativas

Uma das maiores forças do Magento sempre foi sua comunidade. Quando a aquisição da Adobe levantou questões sobre o futuro da versão open source, a comunidade respondeu de uma maneira que demonstra o impacto duradouro da plataforma.

O Mage-OS surgiu como um fork comunitário do Magento Open Source, visando garantir o futuro open source da plataforma independentemente das decisões corporativas. Liderado por membros respeitados da comunidade, o Mage-OS ganhou tração significativa, com lançamentos regulares e adoção crescente.

Outro desenvolvimento notável foi o surgimento do Hyvä, uma alternativa de frontend para o Magento 2. Criado por Willem Wigman, o Hyvä aborda um dos aspectos mais criticados do Magento 2 – sua arquitetura de frontend complexa. Ao substituir o frontend padrão do Magento por uma alternativa mais simples e performática, o Hyvä revolucionou o desenvolvimento para o Adobe Commerce.

Os números falam por si: no início de 2025, o Hyvä alimenta mais de 5.000 lojas em todo o mundo e viu um crescimento de 100% ano após ano. É usado em 81 países e tem uma comunidade próspera com mais de 5.500 membros em seu canal Slack e mais de 8.000 desenvolvedores parceiros.

O Hyvä expandiu-se além de seu escopo original, introduzindo o Hyvä Checkout, Hyvä Enterprise para compatibilidade com Adobe Commerce e, mais recentemente, Hyvä Commerce – um conjunto de ferramentas que aprimoram a experiência administrativa e as capacidades de gerenciamento de conteúdo do Adobe Commerce.

Essas iniciativas comunitárias demonstram algo notável sobre o ecossistema Magento/Adobe Commerce: seu impacto se estende além do código ou da empresa que o possui. Criou um ecossistema de empresas, desenvolvedores e soluções que continuam a inovar independentemente.

É quase como se a comunidade estivesse dizendo: “Se vocês não vão manter o espírito original da plataforma, nós vamos”. E, honestamente, essa resposta da comunidade talvez seja o legado mais importante da plataforma.

O Futuro: O Que Vem Por Aí?

Olhando para o futuro, várias tendências estão moldando a evolução do Adobe Commerce e do ecossistema ao seu redor:

Primeiro, o equilíbrio entre o Adobe Commerce e alternativas orientadas pela comunidade como o Mage-OS continuará definindo o ecossistema. A Adobe está focando em recursos empresariais e integração com seu conjunto mais amplo de produtos, enquanto a comunidade está garantindo que a inovação open source continue.

Segundo, tecnologias de frontend como o Hyvä estão transformando como as lojas Adobe Commerce são construídas e experimentadas. O foco em desempenho, experiência do desenvolvedor e tecnologias modernas está tornando a plataforma mais competitiva em um cenário onde velocidade e experiência do usuário são primordiais.

Terceiro, o gerenciamento de conteúdo está se tornando cada vez mais importante. O roteiro do Hyvä inclui um CMS completamente reimaginado, abordando uma das fraquezas tradicionais do Magento/Adobe Commerce. Esse foco no conteúdo reflete a tendência mais ampla de convergência entre comércio e conteúdo.

Quarto, IA e personalização desempenharão um papel maior. O investimento da Adobe em IA através do Adobe Sensei está trazendo recursos inteligentes para o Adobe Commerce, desde recomendações de produtos até otimização automatizada de imagens.

Finalmente, o papel da comunidade continua crucial. Eventos como o Hyvä Developers Paradise e a Assembleia Geral do Mage-OS demonstram a vitalidade da comunidade e seu compromisso com o futuro da plataforma.

Lições da Jornada

Tendo trabalhado com Magento/Adobe Commerce em diferentes funções e empresas, testemunhei em primeira mão como ele se transformou de uma alternativa flexível para pequenas empresas em uma solução empresarial abrangente. Esta jornada oferece várias lições tanto para plataformas de tecnologia quanto para empresas:

  1. A comunidade importa. O sucesso do Magento sempre esteve ligado à sua comunidade de desenvolvedores, comerciantes e parceiros. Mesmo com as mudanças de propriedade, esta comunidade permaneceu uma força motriz para inovação.
  2. Equilíbrio entre flexibilidade e usabilidade. As primeiras versões do Magento ofereciam tremenda flexibilidade, mas frequentemente à custa da complexidade. A evolução da plataforma tem sido sobre encontrar o equilíbrio certo – mantendo a flexibilidade enquanto melhora a usabilidade.
  3. Adaptação às necessidades do mercado em mudança. O Magento/Adobe Commerce evoluiu continuamente para abordar tendências emergentes, do comércio móvel a arquiteturas headless e personalização orientada por IA.
  4. Mudanças de propriedade impactam ecossistemas. Cada aquisição – do eBay à Permira à Adobe – moldou a direção do Magento. Essas transições destacam como decisões corporativas influenciam ecossistemas tecnológicos, nem sempre para melhor.
  5. Open source cria resiliência. A natureza open source do Magento permitiu que a comunidade garantisse sua continuidade através de iniciativas como o Mage-OS, mesmo quando estratégias corporativas mudaram.

A história do Magento/Adobe Commerce não é apenas sobre tecnologia – é sobre como uma plataforma pode criar um ecossistema que transcende seus criadores originais. De seus humildes começos como uma alternativa ao osCommerce até sua posição atual como parte da plataforma de experiência da Adobe, demonstrou notável resiliência e adaptabilidade.

À medida que o e-commerce continua a evoluir, a combinação de capacidades empresariais do Adobe Commerce, fundações open source e comunidade vibrante o posiciona para permanecer relevante nos próximos anos. Seja você gerenciando uma pequena loja online ou o comércio digital para uma empresa global, a jornada do Magento ao Adobe Commerce oferece insights valiosos sobre o passado, presente e futuro do e-commerce.

E, pessoalmente? Sinto falta dos dias selvagens do Magento original, quando tudo parecia possível (mesmo que levasse três vezes mais tempo do que o esperado para ser implementado). Mas também aprecio a maturidade e estabilidade que a plataforma ganhou ao longo dos anos. Como em qualquer boa história de amadurecimento, algo se perde e algo se ganha. O truque é garantir que o que se ganha valha mais do que o que se perde – e o júri ainda está deliberando se esse é o caso com o Adobe Commerce.