O Oriente Médio Não Está Esperando: Dentro de uma Região Construindo Seu Próprio Motor Digital
abril 17, 2025

O Oriente Médio Não Está Esperando: Dentro de uma Região Construindo Seu Próprio Motor Digital

Tudo começou com uma conversa.

Durante um papo com Prakhar Agarwal, que acompanha de perto o mercado de tecnologia no Oriente Médio, ele soltou uma frase que ficou na cabeça:

“Mesmo com toda a instabilidade global, a região está acelerando.”

Essa frase me fez mergulhar nos dados e nos bastidores. Quis entender o que estava por trás desse movimento, além das manchetes e da empolgação. O que encontrei foi claro: o Oriente Médio não está simplesmente tentando acompanhar. Está traçando seu próprio caminho, construindo uma economia digital com visão, estrutura e velocidade.

E-commerce: Crescimento com Fundamento

O comércio eletrônico na região não está apenas crescendo, está sendo estruturado como pilar econômico. Em 2024, a Arábia Saudita movimentou US$ 22,9 bilhões em e-commerce. Até 2033, esse número pode ultrapassar US$ 700 bilhões, com uma taxa média de crescimento anual de 12,8%.

Nos Emirados Árabes Unidos, o setor está projetado para atingir US$ 17 bilhões em 2025. A combinação de alta penetração de smartphones, consumidores jovens e infraestrutura logística avançada transformou o e-commerce em algo essencial. Plataformas como Noon e Amazon.ae dominam, mas nomes regionais como Namshi e Cartlow seguem crescendo, especialmente com estratégias focadas em UX local e nichos de mercado.

O Egito, por sua vez, virou o motor da operação logística. MaxAB, por exemplo, conecta mais de 70 mil varejistas a fornecedores, otimizando o abastecimento B2B no setor alimentício. A Trella, focada em transporte de cargas, levantou US$ 6 milhões em financiamento em 2024 para expandir sua malha rodoviária. Essas empresas não estão criando aplicativos bonitos — estão resolvendo gargalos estruturais.

Outro fator relevante é o avanço dos modelos “compre agora, pague depois” (BNPL), como Tabby e Tamara. Só em 2025, o mercado BNPL na região deve movimentar cerca de US$ 5,8 bilhões, crescendo 19,4% ano a ano.

Por trás de tudo isso, existem políticas públicas ativas. A Visão 2030 da Arábia Saudita e as estratégias digitais dos Emirados Árabes Unidos não são apenas promessas — são planos financiados, com metas e prazos.

Inteligência Artificial: De Estratégia a Execução

A inteligência artificial se tornou um vetor estratégico real, não apenas discurso. Em 2024, a região MENA (Oriente Médio e Norte da África), junto com Turquia e África, investiu US$ 4,5 bilhões em IA. A previsão é que esse número atinja US$ 14,6 bilhões até 2028.

A Arábia Saudita lançou o Projeto Transcendência, com orçamento de até US$ 100 bilhões. A ideia é simples: não apenas consumir tecnologia, mas ser um dos centros de desenvolvimento. Isso inclui desde data centers e plataformas proprietárias até educação e formação de talentos locais.

Nos Emirados, o foco é ainda mais pragmático. Em 2024, foi criada a MGX, uma gestora de investimentos tecnológicos com patrimônio previsto de US$ 100 bilhões. O G42, braço operacional da estratégia de IA, já trabalha em parcerias com a Nvidia para modelagem climática e lançou o Jais, um modelo de linguagem treinado em árabe para usos comerciais e governamentais.

Essas soluções já estão em campo. Bancos, seguradoras e agências públicas nos Emirados usam IA para atendimento ao cliente, triagem de processos e até diagnósticos médicos. A presença do Ministro de Inteligência Artificial e a criação do Conselho de Economia Digital e IA mostram que o tema tem status de prioridade nacional.

Ainda assim, há um desafio latente: escassez de talento técnico. As iniciativas como o Golden Visa dos Emirados e os programas de residência da Arábia Saudita têm como objetivo atrair profissionais de alto nível. Paralelamente, universidades locais estão criando cursos de IA e ciência de dados para formar uma base interna.

Startups com Propósito Real

Essa revolução digital não está restrita aos governos ou big techs. Um número crescente de startups está desenvolvendo soluções com impacto direto na vida das pessoas e das empresas.

Essas empresas não vendem ideias futuristas. Elas constroem infraestrutura digital funcional. E, cada vez mais, fazem isso com apoio direto de fundos soberanos e grandes investidores locais.

O Que Isso Tudo Significa

O Oriente Médio deixou de ser coadjuvante e passou a construir sua própria narrativa digital. O crescimento no e-commerce vem acompanhado de investimentos sérios em IA, logística, infraestrutura e talento. A região está montando sua stack tecnológica com pragmatismo e visão.

Ainda há desafios, desde regulações até integração entre países, mas o movimento é claro. Os governos estão engajados, o capital está disponível e o setor privado está executando.

Se mantiver esse ritmo, o Oriente Médio não será apenas participante da economia digital global.

Vai ser um dos protagonistas.